Reindustrializar Minas Gerais é estratégia de desenvolvimento

*Artigo publicado originalmente no jornal Otempo


Minas Gerais não pode se limitar a administrar o ciclo das commodities enquanto o mundo reorganiza sua base produtiva. O Brasil perdeu densidade industrial nas últimas décadas: a indústria de transformação, que já representou cerca de 27% do PIB nos anos 1980, hoje gira em torno de 11%. Isso significa menos tecnologia,
menos emprego qualificado e menor autonomia produtiva.
O tema voltou ao centro do debate nacional com o lançamento da Nova Indústria Brasil, que estabelece metas até 2033 para recuperar a capacidade produtiva do país. O reconhecimento é claro: sem estratégia industrial consistente, o Brasil continuará dependente de ciclos internacionais e da exportação de bens primários.
Minas ainda mantém base industrial relevante — aproximadamente um quarto do
PIB estadual vem da indústria. É força, mas também alerta. Parte significativa dessa estrutura segue concentrada na extração mineral e na metalurgia básica. O minério de ferro responde por parcela expressiva das exportações do estado. Superávit é importante. Mas não basta.


Exportar minério não equivale a transformar minério em cadeia produtiva completa. O governo estadual tem priorizado a agenda fiscal e a negociação da dívida, temas relevantes. Mas reequilibrar contas não substitui uma estratégia produtiva.


Minas ainda não apresentou um plano robusto de reindustrialização capaz de dialogar com as transformações tecnológicas e ambientais em curso.


Reindustrializar Minas deve ser uma agenda estratégica da próxima década. No Vale do Aço e no Quadrilátero Ferrífero, isso implica avançar para materiais
especiais, automação e siderurgia de menor emissão. No Triângulo e no Alto Paranaíba, significa agregar tecnologia ao agronegócio. No Sul de Minas, modernizar pequenas e médias empresas e ampliar valor agregado. Na Região Metropolitana de Belo Horizonte, estruturar um complexo econômico-industrial da
saúde. No Norte e no Jequitinhonha, interiorizar desenvolvimento com formação técnica e infraestrutura.
A experiência recente mostrou que incentivos isolados não bastam. É preciso metas claras, compromissos recíprocos e articulação entre poder público, setor produtivo, universidades e trabalhadores.
Responsabilidade fiscal é necessária. Mas estabilidade sem estratégia produtiva não gera transformação.


Em 2026, a disputa pelo governo de Minas deveria colocar a reindustrialização no centro do debate. Não como promessa genérica, mas como projeto estruturado de transformação produtiva. Se for apenas uma disputa administrativa, Minas
continuará administrando dependência. Se for estratégica, o desenvolvimento precisa ser decisão — não inércia

Em Minas Gerais, extração mineral é base importante do setor industrial
Foto: USIMINAS/DIVULGAÇÃO

Deixe um comentário