A chuva que expõe o Estado

A chuva que expõe o Estado

No Brasil, no entanto, a lógica predominante ainda é outra. O sistema institucional costuma reagir mais na emergência do que na prevenção.

Juiz de Fora – Foto de Tomaz Silva – Agência Brasil
  1. A chuva que expõe o Estado

Há momentos em que a chuva deixa de ser apenas fenômeno climático e passa a ser também um espelho incômodo da forma como organizamos a vida coletiva. Em Juiz de Fora, nas últimas semanas, mais de setenta pessoas perderam a vida após um episódio extremo de chuvas e deslizamentos. O país acompanha com comoção as imagens de destruição, resgate e luto. Mas, à medida que a lama baixa e os holofotes se deslocam, permanece uma pergunta que insiste em voltar: por que tragédias como essa continuam se repetindo no Brasil?

A sequência recente de eventos climáticos extremos no país sugere que não estamos diante de episódios isolados. Nos últimos anos, enchentes, deslizamentos e colapsos urbanos marcaram diferentes regiões do território nacional. Em cada novo desastre, repetem-se também as mesmas explicações: excepcionalidade, imprevisibilidade, fatalidade.

Mas será mesmo apenas isso?

Instituições científicas como o INPE, o Cemaden e o próprio IPCC têm apontado de forma consistente que eventos extremos de chuva tendem a se tornar mais frequentes e mais intensos em várias regiões do planeta, inclusive no Sudeste brasileiro. O aquecimento global altera padrões atmosféricos, intensifica a retenção de calor e aumenta a capacidade da atmosfera de armazenar vapor d’água. O resultado são precipitações mais concentradas em períodos curtos, muitas vezes acima da capacidade de drenagem das cidades.

Em outras palavras, o que antes era considerado evento raro passa gradualmente a integrar uma nova normalidade climática.

Esse diagnóstico científico deveria ter consequências políticas claras. Se a tendência é de intensificação desses eventos, então a resposta pública precisa ser estrutural. Planejamento urbano, monitoramento permanente, contenção de encostas, infraestrutura de drenagem, sistemas de alerta e reorganização da ocupação do solo tornam-se elementos centrais de qualquer política de adaptação.

No Brasil, no entanto, a lógica predominante ainda é outra. O sistema institucional costuma reagir mais na emergência do que na prevenção. Mobiliza-se quando a tragédia já ocorreu, quando vidas já foram perdidas, quando a cidade já entrou em colapso.

Isso não significa ausência completa de iniciativas. Nos últimos anos, propostas legislativas e debates públicos sobre adaptação climática começaram a ganhar espaço, inclusive com iniciativas defendidas por parlamentares comprometidos com a agenda ambiental, como a deputada Duda Salabert. Ainda assim, a distância entre o diagnóstico científico e a transformação estrutural das políticas públicas permanece grande.

Enquanto isso, parte do campo conservador continua a tratar a agenda climática com ceticismo ou mesmo hostilidade. Em diversos momentos recentes, forças políticas de direita mobilizaram-se no Congresso em defesa do afrouxamento do licenciamento ambiental e de outras medidas que fragilizam instrumentos de proteção territorial. O resultado é um cenário paradoxal: ao mesmo tempo em que eventos extremos se tornam mais frequentes, parte do sistema político resiste às ferramentas necessárias para enfrentá-los.

Comparações internacionais ajudam a iluminar esse contraste. Nos Estados Unidos, apesar das disputas políticas internas, grandes investimentos vêm sendo direcionados para infraestrutura resiliente e adaptação climática em áreas de risco. Na China, planejamento urbano e obras de grande escala buscam ampliar a capacidade das cidades de lidar com enchentes e eventos extremos. O Brasil, por sua vez, ainda avança de forma fragmentada, sem um plano nacional robusto de adaptação urbana diante das mudanças climáticas.

O caso de Juiz de Fora, portanto, não é apenas uma tragédia local. Ele expõe uma fragilidade mais profunda do modelo de organização territorial brasileiro. Mostra como desigualdade urbana, ocupação precária do solo e ausência de planejamento estrutural se combinam com a intensificação de eventos climáticos extremos.

Há momentos em que a chuva deixa de ser apenas água caindo do céu. Ela passa a revelar as estruturas que sustentam — ou falham em sustentar — a vida coletiva.

E, enquanto essas estruturas não forem enfrentadas com a seriedade que a ciência já exige e que a realidade impõe, o país continuará assistindo, ano após ano, ao mesmo ciclo doloroso: a comoção, o luto e a sensação de impotência diante de vidas perdidas que poderiam ter sido preservadas.

Edgar dos Anjos é professor de filosofia.

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